Cest/UEA forma primeiro pedagogo com deficiência auditiva de Tefé

Defesa do TCC, que aborda a relação entre surdo e suas famílias, ocorreu no dia 20/10

O processo de formação no ensino superior consiste em um ciclo constante de desafios e superações, que resulta não somente no aumento da capacidade intelectual, mas também na formação do caráter e acúmulo de vivências do indivíduo. Se para a sociedade em geral a formação acadêmica é uma provação, para as pessoas com deficiência, os desafios acabam se multiplicando.

Irlen Santos, primeiro pedagogo surdo de Tefé, defendeu, no dia 20/10, seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) no Centro de Estudos Superiores de Tefé da Universidade do Estado do Amazonas (Cest/UEA). O tema foi “A falta de comunicação em Libras nas famílias de surdos no contexto Amazônico”.

Em entrevista intermediada pela professora Rosângela Oliveira, uma de suas intérpretes de Língua Portuguesa-Libras durante a graduação, Irlen nos contou sobre como surgiu o sonho de ser pedagogo e quais foram as dificuldades enfrentadas para concluir esta etapa.

Natural de Tefé, Irlen tem 38 anos e trabalha com o ensino de Atendimento Educacional Especializado de Libras (AEE) no projeto “Mãos que falam”. Ele já nasceu com perda total da audição, sendo o único filho não-ouvinte entre cinco irmãos. Irlen conta que nunca se comunicou de forma apropriada com seus familiares.

Se no contexto familiar a comunicação era insatisfatória, no âmbito escolar não era diferente. O pedagogo lembra que seus professores não sabiam a linguagem de Libras e, por isso, não conseguiam ensinar qualquer matéria.

“Iniciei meus estudos na Escola Municipal Mário Andrezza. Lá, minha professora tentou realizar oralização e me ensinar o alfabeto da língua portuguesa, querendo que eu aprendesse a qualquer custo o português. Mas eu não conseguia entender nada. Ela então foi substituída por outra professora, que tentou, sem sucesso, fazer a mesma coisa.”

Irlen conta que só em 1998, na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Tefé, que começou a receber acompanhamento próprio. “Foi aí que comecei a me desenvolver, a aprender e a evoluir”. Em 2007, Irlen se formou no ensino médio.

O sonho de ser pedagogo nasceu do fato de ele próprio nunca ter tido, durante sua infância, um professor capaz de entender o universo dos surdos. “Desde que soube que eu poderia ajudar outras pessoas a não passarem o que passei na minha infância e adolescência, poder contribuir com o desenvolvimento de crianças com deficiência auditiva se tornou uma meta. A ideia de me formar em Pedagogia e ensinar crianças a desenvolverem seu potencial sempre trouxe muita emoção. Isso contribui para um futuro melhor para outras pessoas deficientes auditivas.”

A graduação de Irlen, porém, não transcorreu sem dificuldades no que diz respeito à acessibilidade. Uma delas foi o fato de sua primeira intérprete ter adoecido, fazendo com que ele tivesse de aguardar pela contratação de outra profissional. O tema do seu TCC foi escolhido a partir de suas próprias vivências e dificuldades enfrentadas. E Irlen espera poder ajudar outras famílias de pessoas com deficiência auditiva por meio de suas experiências.

Planos – Sobre o futuro, o pedagogo pensa em cursar uma pós-graduação, mestrado ou até mesmo um doutorado. Para ele, é preciso que as políticas de inclusão sejam, de fato, postas em prática ao longo de todo o processo de desenvolvimento das pessoas que necessitem ter suas singularidades respeitadas.

“Sonho em ver os deficientes auditivos de nossa cidade tendo um motivo a mais para acreditar que podem alcançar suas realizações de maneira igualitária em relação aos ouvintes. Sei que não será fácil, mas nunca foi. E também não perco a esperança”, concluiu.

A professora Rosângela Oliveira descreve a experiência de ter auxiliado Irlen como uma grande oportunidade e um desafio ímpar, uma vez que ela ainda não tinha a fluência devida em Libras. “Conheci o Irlen no 4º período da minha graduação em Letras. Eu nem ao menos sabia o básico de Libras, mas o auxiliei na inscrição para o Vestibular da UEA. No começo, a comunicação se dava por meio de papel e caneta, de palavras aleatórias.”

Rosângela conta que o tempo passou e foi acumulando experiência em outros projetos e realizou um curso técnico para intérprete de Línguas de Sinais. Foi quando veio a oportunidade de auxiliar Irlen. “Graças a Deus, com dedicação, responsabilidade e entrega, consegui ser útil ao meu amigo, à minha família e a mim mesma. O trabalho dignifica os seres em meio à sociedade”, concluiu.

Texto: Pedro Xavier/Ascom UEA.

Edital

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