“Esta foi uma oportunidade única de socializar minha pesquisa em outro país. Um trabalho que foi desenvolvido no interior do Amazonas, com compromisso, ética, canoa e pau de arara – transporte usado para ir e vir na aldeia. Sou Kokama e fruto da interiorização da universidade pública e da pós-graduação”, disse Hemily Pastana, acadêmica do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Amazonas (PPged/UEA) e bolsista da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), que representou a instituição no XI Empi (Edition of the Multidisciplinary Meeting on Indigenous Peoples/Encontro Multidisciplinar sobre Indígenas). O evento aconteceu no período de 6 a 7 de junho deste ano, na Sciences Po Paris, Law School.
A discente foi chamada para participar na categoria de apresentação “Session Vulnerable Groups and Intersectionalities: Struggles and Forms of Organisation (Sessão Grupos Vulneráveis e Interseccionalidades: Lutas e Formas de Organização, traduzido para o português)” com a pesquisa intitulada “The Ajuri of Kokama Indigenous Women: A Decolonial Perspective of Living (O Ajuri das Mulheres Indígenas Kokama: Uma Perspectiva Decolonial de Vida, em português)”, sobre um princípio pedagógico ancestral e cultural do povo Kokama, moradores do médio Solimões, com o intuito de mostrar o Ajuri das mulheres Kokama como metodologia de vida em coletivo dentro de um mundo de crise.
Além disso, Hemily Pastana foi convidada a fazer parte do Atlas des Peuples Autochtones (Atlas dos Povos Indígenas, em português), como autora do livro. Esse é um projeto, ainda em desenvolvimento, iniciado após as socializações das pesquisas. Os capítulos irão tratar das vulnerabilidades dos povos indígenas em relação à crise climática, fatores socioeconômicos, mulheres indígenas no sistema prisional, direitos da natureza, direitos coletivos, entre outros, trazendo as vivências indígenas de vários lugares do mundo.

Sobre a pesquisa
O tema apresentado “The Ajuri of Kokama indigenous women: A decolonial perspective of living (O Ajuri das mulheres indígenas kokama: Uma perspectiva decolonial de vida, em português)” trata-se de um artigo em desenvolvimento, construído com mulheres do povo Kokama da aldeia Barreira da Missão de Baixo, na terra indígena Barreira das Missões, localizada em Tefé, no Amazonas.
Com a permissão do cacique, foram realizadas entrevistas com as anciãs da aldeia, pesquisas de campo e observação participante para que fossem coletados os dados principais da pesquisa. Segundo Hemily, por meio dessa análise foi possível compreender o Ajuri como modo de organização vital que envolve atividades cotidianas, como os afazeres da roça e construção de locais de uso coletivo, entre as pessoas da aldeia, visando como fator final o bem comum.
De acordo com a pesquisadora, as mulheres, como guardiãs dos saberes ancestrais, vivem em Ajuri. Elas desenvolvem suas atividades nessa perspectiva de organização e cuidado do espaço comunitário que perpassa desde o cultivo da maniva para a subsistência das famílias, os trabalhos com teçume de cestos, paneiros e outros utensílios, até o fortalecimento dos laços comunitários por meio das refeições coletivas. “Além da força conjunta de trabalho, o Ajuri é parte da identidade coletiva deste povo, fortalecido pelas mulheres pelo conhecimento que lhes é próprio, como uma forma de vida comunal ancestral no coração do Amazonas, diante de um mundo em crise”, complementou.
Trajetória da pesquisadora na universidade
Hemily Pastana tinha o sonho de ser professora. Entrou na universidade em 2017, quando passou para pedagogia no vestibular. Entre os principais desafios, enfrentar o machismo foi o principal deles. O Clube das Manas, projeto de extensão realizado dentro da UEA em Tefé e coordenado pela Prof.ª Dra. Rita Machado, foi essencial para a construção da profissional durante esse tempo, pois ele socializa livros em uma perspectiva feminina.
Atualmente, Pastana é pedagoga e está no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPged), no Centro de Estudos Superiores de Tefé (Cest), sendo também bolsista da Fapeam. Ao longo desses quase dois anos de curso conseguiu publicar quatro artigos em periódicos com qualis; publicar seis capítulos de livro; cinco trabalhos completos publicados em anais de congressos; ter várias participações em eventos nacionais e internacionais.
Texto: Amanda Gonzalez/Ascom UEA








