Que o Festival Folclórico de Parintins é uma das maiores festas populares do Norte do País não é novidade. Tanto que o festival é reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O amor pelo festival se transformou em tema de dissertação na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), sob o título “A batalha do povo Perreché contra o povo da Francesa: o protagonismo das torcidas no Festival Folclórico de Parintins”, de autoria de Arnoldo Santos.
A dissertação é a 115ª pesquisa desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGICH/UEA) e contou com a banca avaliadora composta pelas docentes: Dra. Lúcia Marina Puga Ferreira (orientadora/presidente); Tatiana de Lima Pedrosa Santo (PPGICH/UEA); e Dra. Graciene Silva de Siqueira (PPGSCA-Ufam).
Santos explica que a produção da dissertação iniciou a partir da constatação e observação que o diferencia de todos os outros grandes eventos culturais, artísticos, a céu aberto, movimentos culturais em forma de disputa, como é o festival, que é a capacidade, a possibilidade de o torcedor influenciar no resultado final da disputa.
“Foi a partir de um diálogo que eu presenciei entre duas pessoas, um rapaz e uma moça, torcedores de um sobre o Boi-Bumbá, que eu presenciei no segundo dia de festival. Ele falou para ela: você é uma torcedora desunida, você deixa vazio na galera. E aí, com aquele diálogo, eu defini o foco da minha dissertação, que foi justamente esse poder de decidir”, explicou Santos.
O agora mestre Arnoldo explica que o diálogo é representativo, pois mostra todo o conhecimento sobre o regulamento, o compromisso do torcedor de cumprir o regulamento, cumprir a perfeição, buscar a perfeição dentro da galera. “Por que o que significa? É você deixar vazios espaços vazios na galera. Isso faz com que não só a sincronia mas, principalmente, a imagem de massa popular seja prejudicada para uma eventual avaliação do jurado. E esse fato foi o que realmente definiu a minha abordagem da minha dissertação, que já era, decididamente, sobre as torcidas”, destacou.
Resultado da dissertação
Santos reforça que os resultados adquiridos são a confirmação de que a prática do ser torcedor solidifica um processo de identidade cultural do parintinense. “Então, o conceito, a discussão, a conceituação sobre identidade cultural passa pelo estudo de vários focos da sociedade. E faz com que a gente constate que a prática do ser torcedor, o boi-bumbá, o Festival Folclórico de Parintins, os bois bumbás de Parintins, materializados, personificados na prática do ser torcedor está presente em vários ambientes da sociedade parintinense: na religiosidade, na educação, na geografia, na produção artística, na religiosidade, nos costumes. Enfim, na história do parintinense”, pontuou.
Santos explica que pretendia fazer com que a pesquisa fosse uma contribuição para que o parintinense entenda a si mesmo e se reconheça dentro de um universo que está relacionado com o boi-bumbá. Além disso, reconheça de que maneira o boi-bumbá se insere na sociedade e ele, na sua prática de ser torcedor, leve o boi-bumbá para a sua vida cotidiana porque a vida cotidiana é permeada pela prática de ser torcedor do boi-bumbá.
“Isso faz com que a relação que os bois-bumbás têm, ou melhor, com que o torcedor tenha com o seu boi-bumbá, seja uma relação de afeição, como muito bem descreve a professora Maria Laura Viveiros Cavalcanti no livro “Afeição e Rivalidade”. Isso faz com que o boi-bumbá se caracterize, também, por um ritual que é seguido em uma cronologia que se repete todo ano. Tanto que essa cronologia é chamada de temporada. Então, a temporada faz com que o ser torcedor seja uma prática que não se refere temporalmente, tão somente ao festival, às três noites de festival. Então, esses resultados foram justamente a constatação de que maneira a prática do ser torcedor está inserida na sociedade parintinense”, comentou.
O mestre em Ciências Humanas reforça que pretende transformar a dissertação em livro, pois na forma de livro terá a capacidade de atingir mais pessoas. “Acho que é muito importante a gente sempre frisar que a minha pesquisa é resultado de uma iniciativa, de uma mobilização acadêmica provocada/possibilitada pela existência da UEA e, também, pela possibilidade de ter uma bolsa da Fapeam. E, nessa combinação de academia com agência de fomento, é possível que as pessoas tenham uma proposta de pesquisa como eu tive”, pontuou.
Amor pelo Festival
Arnoldo finaliza ao relembrar que começou o mestrado com um atraso de, pelo menos 20 anos. Mas sua ligação com o Festival Folclórico de Parintins o obrigava a fazer a pesquisa e a deixar essa contribuição para as gerações futuras.
“Então, não é fácil fazer uma pesquisa aos 50 e poucos anos de idade. Voltar à sala de aula depois de tanto tempo é um desafio, mas eu acho que o conhecimento do objeto de pesquisa, de tantos anos de convívio que eu tenho com o festival, me deu uma segurança e um incentivo a mais. É, até mesmo, uma facilidade de transformar isso em uma pesquisa, em um trabalho final de mestrado”, finalizou.








